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quarta at sunset

 

Hoje que a tarde é calma e o céu tranqüilo,

E a noite chega sem que eu saiba bem,

Quero considerar-me e ver aquilo

Que sou, e o que sou o que é que tem.

Olho por todo o meu passado e vejo

Que fui quem foi aquilo em torno meu,

Salvo o que o vago e incógnito desejo

Se ser eu mesmo de meu ser me deu.

Como a páginas já relidas, vergo

Minha atenção sobre quem fui de mim,

E nada de verdade em mim albergo

Salvo uma ânsia sem princípio ou fim.

Como alguém distraído na viagem,

Segui por dois caminhos par a par

Fui com o mundo, parte da paisagem;

Comigo fui, sem ver nem recordar.

Chegado aqui, onde hoje estou, conheço

Que sou diverso no que informe estou.

No meu próprio caminho me atravesso.

Não conheço quem fui no que hoje sou.

Serei eu, porque nada é impossível,

Vários trazidos de outros mundos, e

No mesmo ponto espacial sensível

Que sou eu, sendo eu por `'star aqui ?

Serei eu, porque todo o pensamento

Podendo conceber, bem pode ser,

Um dilatado e múrmuro momento,

De tempos-seres de quem sou o viver ?

 

[Fernando Pessoa]

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Uploaded on June 2, 2010
Taken on December 22, 2005