AZU.antiprojeto.zerohum
zerohum - Apoio: Frans Cafetao
zerohum no Jornal Estado de Sao Paulo e a nova concorrencia da R. Agusta
A obra da foto acima foi feita em um ponto de ônibus na Rua Augusta que fica próxima ao centro da cidade de São Paulo. A técnica desse trabalho é chamada de lambe-lambe e consiste geralmente em impressões de variadas formas em papel sulfite de tamanho também variado e colados nos espaços públicos com uma cola feita com farinha, vinagre e água. Em suma, uma técnica expressiva bastante econômica. Essa técnica é muito utilizada na propaganda de shows e de casas noturnas.
Nesse lambe-lambe vemos a impressão de uma página de jornal destinada a classificados e que é chamada de “Relax Acompanhantes”. Os classificados contidos nessa página são diversos anúncios com nomes de garotas que oferecem seus serviços, que despertam e prometem a realização de diversos desejos e fantasias sexuais de seus prováveis clientes. Vale registrar que a recepção desses classificados pela sociedade, e mesmo pelos homens que é a quem eles se destinam não é tão agradável, pois provoca a libido e isso pode soar ou despertar velhos tabus. Muitos dos que vêem esses classificados, principalmente as mulheres, classificam essas anunciantes anônimas de prostitutas e mesmo os que aceitam esse tipo de anúncio os aceitam de modo velado e contido.
A princípio nos parece apenas mais uns desses anúncios já corriqueiros nas ruas de São Paulo e considerados por muitos como banais e vulgares, mas no meio desses anúncios encontramos algumas propagandas largamente conhecidas pela população e que tornam-se inusitadas no contexto dessa colagem.
Logo abaixo do título “relax acompanhantes” encontramos um logotipo e ao lado o nome “companhia Vale do Rio Doce”, de uma das maiores empresas do Brasil e nesse contexto podemos entender também como uma acompanhante e seu nome “Vale do Rio Doce” pode nos remeter, metaforicamente, a zonas erógenas do corpo humano que ganha dimensões geográficas.
Acima temos a foto de uma mulher nua que cobre seus seios e vagina com as mãos e ao lado seu nome e um número. Acompanhando essa foto encontramos as palavras indicativas “para vereadora” seguidas de um slogan imperativo “Vote na boa”, indicando que essa mulher é candidata a algum cargo político eletivo. Dentro dessas referencialidades de anúncios com apelos eróticos essa propaganda política ganha uma leitura irônica ao relacionar prostituta/política.
Abaixo temos o anúncio de uma famosa cafeteria chamada “Frans Café”, mas no lugar de café lemos Cafetão, que é um termo geralmente atribuído aos homens que agenciam garotas de programa e esse atributo profissional é atribuído a um provável homem chamado Frans. O slogan que acompanha esse anúncio é “estilo e arte de servir” que também nos remete ao trabalho tanto de um café como de um cafetão.
Ao lado temos a propaganda do Mc´Donalds, lanchonete de origem norte americana com o slogan “amo muito tudo isso” e que em meio a todos esses anúncios fetichistas parece-nos se referir a eles como uma declaração amorosa a esse caos de mensagens. Em seu logotipo, a letra “M” cujas pontas são arredondadas e associadas a nádegas ou a seios, encontramos entre essas pontas um símbolo fálico.
Finalizando as interferências das propagandas conhecidas e bastante populares encontradas nessa página temos a propaganda do Banco Bradesco na qual há um trocadilho entre o nome de um serviço oferecido pelo banco que é chamado “Prime” e que nesse anúncio está trocado pela palavra “Primas”, nome também usado para se referir a garotas de programa, insinuando talvez um novo serviço oferecido pelo banco.
Em um outro lado do ponto de ônibus que divide e distribui as páginas do jornal tanto para o lado da rua como para o lado da calçada, encontramos quatro interferências: A primeira ao lado do cabeçalho do jornal é a frase “Antiprojeto Zerohum – Cafetão de Políticos e empresas”, provável nome do artista ou grupo que desenvolveu o lambe-lambe seguido de um slogan que mostra a intenção do realizador do trabalho em satirizar as grandes empresas e políticos do Brasil e do mundo, comparando-os a cafetões prostitutas e mais do que isso relacionado-os , como é feito com relação à venda de desejos eróticos e sexuais tão comuns no mercado de consumo. Colocando lado a lado os dois tipos de exploração comercial dos desejos o autor nos faz pensar no que de fato é banal e vulgar na nossa sociedade e em como o consumo é explorado de forma apelativa pelas grandes empresas.
Na página que está virada para a calçada temos a propagada da marca de jóias “Vivara”, com um nome que quando lido pode sugerir ao leitor a visão de uma vara (Vi vara), expressão que nos remete a um objeto fálico, pois trata-se de um epíteto do órgão sexual masculino.
Abaixo, uma faixa grande ocupando quase todo o centro da página com um anúncio político como o anterior da mesma candidata à vereadora, mas agora vinculando a garota quase nua a um candidato ao Senado e que é notoriamente tido como conservador, portanto avesso a esse tipo de apelo.
Por último o anúncio da Petrobras que abaixo do seu nome tem escrito “Pietro Brás – c/ força” e mais abaixo o slogan: “O desafio é a nossa energia”, indicando nessas frases indícios de referência à energia dispendida no ato sexual.
Esse lambe-lambe revela um choque e uma subversão entre anúncios publicitários. Anúncios que são legalmente e socialmente aceitos e até apreciados (Mc Donalds, Vivara, Banco Bradesco, Candidatos políticos, Frans Café) surgem nesse lambe-lambe como vendedores ou incentivadores de práticas legalmente e socialmente reprováveis e por outro lado os anúncios de mulheres anônimas, por serem tão intensos, acabam por se tornarem naturais e aceitáveis. São as anônimas que fazem o bem e os consagrados que fazem o mal e isso revela uma grande ironia com os valores instituídos em nossa sociedade.
A localização desses lambe-lambes também é muito sugestiva e nos sugerem a ironia como conclusão final. Atualmente a vida noturna da Rua Augusta é muito famosa pelas casas de striptease, saunas e boates e também pelas suas calçadas onde transitam muitas garotas de programa, travestis e vários outros profissionais do sexo, ao mesmo tempo, é uma rua que abriga grandes lojas e um diversificado tipo de comércio além de cruzar com diversas ruas muito famosas por seu comércio de alto nível financeiro como a Av. Paulista e a Oscar Freire no bairro “nobre” dos Jardins. Com isso, o artista re-figura o conflito sócio-cultural do próprio local entre o comércio institucionalizado e sacralizado pela “nobreza” e aquele profanado e proletarizado pelas profissionais do sexo. E tudo isso nos revela esse conflito sócio-cultural por uma ótica que subverte os signos que já habitam o imaginário do espaço público local.
Prof. Urbano do Vale
zerohum - Apoio: Frans Cafetao
zerohum no Jornal Estado de Sao Paulo e a nova concorrencia da R. Agusta
A obra da foto acima foi feita em um ponto de ônibus na Rua Augusta que fica próxima ao centro da cidade de São Paulo. A técnica desse trabalho é chamada de lambe-lambe e consiste geralmente em impressões de variadas formas em papel sulfite de tamanho também variado e colados nos espaços públicos com uma cola feita com farinha, vinagre e água. Em suma, uma técnica expressiva bastante econômica. Essa técnica é muito utilizada na propaganda de shows e de casas noturnas.
Nesse lambe-lambe vemos a impressão de uma página de jornal destinada a classificados e que é chamada de “Relax Acompanhantes”. Os classificados contidos nessa página são diversos anúncios com nomes de garotas que oferecem seus serviços, que despertam e prometem a realização de diversos desejos e fantasias sexuais de seus prováveis clientes. Vale registrar que a recepção desses classificados pela sociedade, e mesmo pelos homens que é a quem eles se destinam não é tão agradável, pois provoca a libido e isso pode soar ou despertar velhos tabus. Muitos dos que vêem esses classificados, principalmente as mulheres, classificam essas anunciantes anônimas de prostitutas e mesmo os que aceitam esse tipo de anúncio os aceitam de modo velado e contido.
A princípio nos parece apenas mais uns desses anúncios já corriqueiros nas ruas de São Paulo e considerados por muitos como banais e vulgares, mas no meio desses anúncios encontramos algumas propagandas largamente conhecidas pela população e que tornam-se inusitadas no contexto dessa colagem.
Logo abaixo do título “relax acompanhantes” encontramos um logotipo e ao lado o nome “companhia Vale do Rio Doce”, de uma das maiores empresas do Brasil e nesse contexto podemos entender também como uma acompanhante e seu nome “Vale do Rio Doce” pode nos remeter, metaforicamente, a zonas erógenas do corpo humano que ganha dimensões geográficas.
Acima temos a foto de uma mulher nua que cobre seus seios e vagina com as mãos e ao lado seu nome e um número. Acompanhando essa foto encontramos as palavras indicativas “para vereadora” seguidas de um slogan imperativo “Vote na boa”, indicando que essa mulher é candidata a algum cargo político eletivo. Dentro dessas referencialidades de anúncios com apelos eróticos essa propaganda política ganha uma leitura irônica ao relacionar prostituta/política.
Abaixo temos o anúncio de uma famosa cafeteria chamada “Frans Café”, mas no lugar de café lemos Cafetão, que é um termo geralmente atribuído aos homens que agenciam garotas de programa e esse atributo profissional é atribuído a um provável homem chamado Frans. O slogan que acompanha esse anúncio é “estilo e arte de servir” que também nos remete ao trabalho tanto de um café como de um cafetão.
Ao lado temos a propaganda do Mc´Donalds, lanchonete de origem norte americana com o slogan “amo muito tudo isso” e que em meio a todos esses anúncios fetichistas parece-nos se referir a eles como uma declaração amorosa a esse caos de mensagens. Em seu logotipo, a letra “M” cujas pontas são arredondadas e associadas a nádegas ou a seios, encontramos entre essas pontas um símbolo fálico.
Finalizando as interferências das propagandas conhecidas e bastante populares encontradas nessa página temos a propaganda do Banco Bradesco na qual há um trocadilho entre o nome de um serviço oferecido pelo banco que é chamado “Prime” e que nesse anúncio está trocado pela palavra “Primas”, nome também usado para se referir a garotas de programa, insinuando talvez um novo serviço oferecido pelo banco.
Em um outro lado do ponto de ônibus que divide e distribui as páginas do jornal tanto para o lado da rua como para o lado da calçada, encontramos quatro interferências: A primeira ao lado do cabeçalho do jornal é a frase “Antiprojeto Zerohum – Cafetão de Políticos e empresas”, provável nome do artista ou grupo que desenvolveu o lambe-lambe seguido de um slogan que mostra a intenção do realizador do trabalho em satirizar as grandes empresas e políticos do Brasil e do mundo, comparando-os a cafetões prostitutas e mais do que isso relacionado-os , como é feito com relação à venda de desejos eróticos e sexuais tão comuns no mercado de consumo. Colocando lado a lado os dois tipos de exploração comercial dos desejos o autor nos faz pensar no que de fato é banal e vulgar na nossa sociedade e em como o consumo é explorado de forma apelativa pelas grandes empresas.
Na página que está virada para a calçada temos a propagada da marca de jóias “Vivara”, com um nome que quando lido pode sugerir ao leitor a visão de uma vara (Vi vara), expressão que nos remete a um objeto fálico, pois trata-se de um epíteto do órgão sexual masculino.
Abaixo, uma faixa grande ocupando quase todo o centro da página com um anúncio político como o anterior da mesma candidata à vereadora, mas agora vinculando a garota quase nua a um candidato ao Senado e que é notoriamente tido como conservador, portanto avesso a esse tipo de apelo.
Por último o anúncio da Petrobras que abaixo do seu nome tem escrito “Pietro Brás – c/ força” e mais abaixo o slogan: “O desafio é a nossa energia”, indicando nessas frases indícios de referência à energia dispendida no ato sexual.
Esse lambe-lambe revela um choque e uma subversão entre anúncios publicitários. Anúncios que são legalmente e socialmente aceitos e até apreciados (Mc Donalds, Vivara, Banco Bradesco, Candidatos políticos, Frans Café) surgem nesse lambe-lambe como vendedores ou incentivadores de práticas legalmente e socialmente reprováveis e por outro lado os anúncios de mulheres anônimas, por serem tão intensos, acabam por se tornarem naturais e aceitáveis. São as anônimas que fazem o bem e os consagrados que fazem o mal e isso revela uma grande ironia com os valores instituídos em nossa sociedade.
A localização desses lambe-lambes também é muito sugestiva e nos sugerem a ironia como conclusão final. Atualmente a vida noturna da Rua Augusta é muito famosa pelas casas de striptease, saunas e boates e também pelas suas calçadas onde transitam muitas garotas de programa, travestis e vários outros profissionais do sexo, ao mesmo tempo, é uma rua que abriga grandes lojas e um diversificado tipo de comércio além de cruzar com diversas ruas muito famosas por seu comércio de alto nível financeiro como a Av. Paulista e a Oscar Freire no bairro “nobre” dos Jardins. Com isso, o artista re-figura o conflito sócio-cultural do próprio local entre o comércio institucionalizado e sacralizado pela “nobreza” e aquele profanado e proletarizado pelas profissionais do sexo. E tudo isso nos revela esse conflito sócio-cultural por uma ótica que subverte os signos que já habitam o imaginário do espaço público local.
Prof. Urbano do Vale