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Há-de acontecer.

Nampula, Moçambique (2013)

 

 

Há muito que pensava escrever sobre as minhas viagens, mas sempre faltou aquela oportunidade – ou real vontade, se assim preferirem – para o fazer. Os planos são sempre muitos, as ideias são fantásticas, mas nem sempre se acende o rastilho que despoleta a acção. Até ao dia mais improvável. Tantas memórias fantásticas passadas, tantas histórias por contar, tantos locais inolvidáveis já visitados, até que dou por mim sentado no Aeroporto de Nampula, inspirado por uma viagem que tinha tudo para ser banal, a relatar um dia em que saí de Nacala com destino a Maputo.

 

São 7h00 de uma manhã tórrida em Nacala. À hora combinada, o taxista Jacinto responde à minha chamada. “Estou chegando”. Em moçambicano, significa que acaba de sair para me vir buscar. Sei então que, se tudo correr bem, às 9h00 estarei a entrar no táxi em direcção a Nampula. Falho na previsão e meto conversa com o segurança na portaria. “Nós moçambicanos, não somos mesmo bons nessa coisa de horas”.

 

Como Jacinto, assim vai o desenvolvimento de um país que muito promete. Atrasado. Os moçambicanos são extraordinariamente simpáticos, mas odeiam o confronto. Ou então são demasiado optimistas. “Não faço” é uma expressão muito rara por estas paragens. Por oposição a “hei-de fazer”, que em rigor exprime uma intenção imediata mas que prepara já o interlocutor para, na melhor das hipóteses, o elevado tempo de espera que o aguarda. Também a ponte da KaTembe há-de ser construída, também o gás há-de ser extraído da bacia do Rovuma, também o carvão de Tete há-de escoar pelas vias férreas reabilitadas, também o desenvolvimento chegará um dia a Moçambique.

 

Às 9h15, Jacinto chega apressado. Entro no táxi e aperto o cinto. Ao contrário de Jacinto. É frequente morrerem mais de 50 pessoas por semana nas estradas moçambicanas. “O ar condicionado está avariado”. “Sem problema”, nem tudo é mau: os vidros eléctricos funcionam. Com sorte, não haverá nada mais avariado no tradicional Toyota Corolla Sedan, o best-seller das viaturas usadas importadas do Japão que nos levará a Nampula. Iniciamos então viagem para logo parar. Sem pedir licença, Jacinto encosta e dá boleia a uma jovem mulher e ao seu filho, que caminha pela mão da mãe e não aparenta ter mais de 4 anos. Porque razão haveria eu de me importar? Não me importo de facto: seria muito infeliz em África se o fizesse. É o que temos, penso. Viajam ambos no banco do passageiro da frente, o cinto fica uma vez mais para trás. No sentido inverso, avisto um camião cisterna com a inscrição “Água Potável”. Na berma, são mulheres com as suas capulanas coloridas que caminham, transportando à cabeça o líquido precioso.

 

Em apenas 20 minutos, mais um excelente resumo da “Pérola do Índico”. Um país de gente descontraída, que não tem outra escolha senão simplificar a vida. Com tanta preocupação de sobrevivência, com tanta dificuldade em encontrar assistência médica ou simplesmente água para beber, ninguém no seu perfeito juízo se poderá importar em partilhar mais um bem precioso: um carro, capaz de andar. “O acesso à água é o nosso maior problema aqui”, confirma Jacinto. Depois de tomar conhecimento dos novos projectos para a cidade de Nacala algumas horas antes, posso tranquilizá-lo: também a água potável há-de chegar aqui.

 

Avançamos na viagem. Pela janela vejo uma planície imensa salpicada aqui e ali por afloramentos rochosos impressionantes. Maciços imponentes de formas dramáticas, verdadeiras agulhas apontadas ao céu. Paisagem deslumbrante, a não destoar em nada do resto de Moçambique. Pelo caminho, uma barragem vazia não escapa à chamada de atenção de Jacinto: “Este ano está a chover muito pouco, nós dependemos muito da chuva”. Não obstante, tudo está verde. A humidade abunda por aqui, vejo árvores centenárias carregadas de mangas maduras e de moçambicanos a dormir debaixo delas. Beber pode ser difícil, comer nem por isso. Nas aldeias e vilas, as crianças brincam alegremente nas ruas de terra por entre as casas feitas de madeira, argila e colmo, aqui e ali poluídas por uma ou outra chapa de zinco. É Domingo. Nas igrejas e mesquitas, os fiéis acotovelam-se à porta para escutar a orientação divina.

 

Moçambique é um país multi-cultural. Não existe uma religião dominante no país, mas aqui no norte a maioria é muçulmana. 90%, assegura Jacinto. Independentemente do credo, os moçambicanos são crentes. É o que resta a quem depende da chuva. A educação tarda em chegar, pelo menos com a qualidade necessária para que este povo maravilhoso possa deixar enfim de olhar para o céu à espera que chova – água, para beber, ou mangas, para comer.

 

O sol está já a pique quando chegamos a Nampula. Pelo meio de buracos e sacos de plástico, atravessando mercados fervilhantes, avistamos por fim o edifício que dá sede ao Aeroporto Internacional de Nampula. É um excelente exemplar da melhor arquitectura moderna, que tem hoje dificuldade em esconder as marcas severas da passagem do tempo. É que, como por tantos outros edifícios e coisas mais em Moçambique, o tempo passa devagar, mas passa.

Subo então ao primeiro andar do aeroporto e entro no “restaurante”. Queria beber água mas não há, terei que me contentar com Laurentina Premium. Pelo menos, é uma das melhores cervejas que já bebi. Bebo o primeiro gole, está a estalar. Sinto-me uma vez mais compensado. Não estranho a sensação, nesta terra onde as dificuldades são muitas mas que, a toda a hora, nos oferece tantos dos melhores pequenos prazeres da vida.

 

Sentado na varanda do aeroporto, observo agora aquele pôr-do-sol que só se pode ver em África. Tenho enfim tempo para escrever e observar, porque no final do dia, ainda distante, também eu hei-de chegar a Maputo!

 

Nampula, 15 de Dezembro de 2013

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Uploaded on March 27, 2017
Taken on December 15, 2013