Todo artista, ao criar, dá forma e sentido à realidade através de suas obras; seja qual for o motivo escolhido, sempre será uma nova explicação ou uma declaração pessoal de sua grande história, de seu universo. Nós, homens, percebemos e explicamos a realidade de acordo com nossas recordações, formação, experiências e observações, mas só os artistas darão forma a tudo isso. Pintar, narrar, construir ou compor serão as linguagens escolhidas.
Vermelho é um demiurgo, um criador de mundos, fantásticos e paralelos. Eles estão entre nós, em nossa cidade, ao dobrar a esquina, em nosso prédio. A beleza está à nossa espreita nos lugares mais ocultos.
Construir um mundo é uma forma de explicar o universo. No entanto, agora que tudo já está cartografado por satélite, que já não existe uma África misteriosa nem selvas insondáveis, agora que vivemos no mundo da nanotecnologia e do microchip, da genética e da física quântica; agora que já desapareceram as máquinas a vapor e os engenhos industriais de grandes rodas dentadas e hélices gigantescas, continuamos sonhando e o mistério, a magia, os mecanismos e recursos nos cativam. O homem continua fantasiando. Existir, Ser, é tão mágico e prodigioso por si mesmo que toda fantasia é pouca – a vida é sonho e os sonhos, sonhos são – ou talvez não?
A realidade sempre supera a ficção e Vermelho utiliza seus excelentes dotes para a cenografia e composição, fazendo com que as figuras desçam de suas molduras douradas ou entalhadas, para nos dizer algo, que não sabemos o quê, algo misterioso numa excelente mistura de fantasia e realidade.
Sobre sua forma de narrar, pode-se dizer que ele é um neorromântico mágico, como E. T. A. Hoffmann, com seus personagens, meio mecânicos, meio anjos, meio demônio; porque a realidade mágica nunca se acaba de perceber nitidamente, o que me traz de volta ao conto do Homem de Areia, num fantástico ir-e-vir de significados; talvez, sem se propor a isso explicitamente, Vermelho nos conta histórias similares.
Em seu subconsciente, no fundo de sua memória – como assinalava Jung – pulsam os mesmos medos e terrores, os mesmos mitos e símbolos que no restante dos artistas ocidentais. A magia existe ou assim parece. Em suas pinturas e esculturas, não está a bela Olímpia, um autômato, talvez não de forma explícita, mas há gatos e capetas mecânicos e o pequeno Eliot, vestido de adulto, com engrenagens escondidas e rodas dentadas debaixo do seu chapéu. Poderia ser Coppelius, o vendedor de lentes, aquele que roubava os olhos das crianças?
Uma atmosfera de divertido e ingênuo mistério, de obscuros mecanismos infernais, de doces bonecas, meio santas e meio demônios, voam com suas pequenas asas, e Eliot, com uma voz surda e rouca, grita: deem-me olhos,... deem-me olhos, enquanto os pequenos demônios e gatos mecânicos cantam a ária Les oiseaux dans la charmille de Offenbach e dão corda uns aos outros.
Amador Griñó
2013
- JoinedMay 2009
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