A arte é o molde de fazer
A primeira ideia que me ocorreu à cabeça foi a explicação do poeta pernambucano Sebastião Uchoa Leite(1935-2003) sobre as histórias da Alice, de Lewis Carroll*, do uso por Carroll de ‘portmanteaux, ou palavras-valise, em que duas formam uma terceira, como snark, formada por snake [serpente] e shark [tubarão]. Esse hibridismo é o modo de ser das novas esculturas de Sidney Amaral e impõe outro modo de pensar.
As peças desse artista paulistano são como uma frase sintaticamente correta, mas destituída do sentido lógico habitual. Acontece isso no livro de Carroll. Uma carta de baralho que é uma rainha quer decapitar um gato sem cabeça – o que representa problema lógico. Em outra passagem, a cozinheira da Duquesa atira frigideiras, travessas e pratos para tudo quanto é lado. A Duquesa conclui no final da balbúrdia que o mundo giraria mais rápido se cada um cuidasse das próprias coisas. Parecem as peças de Sidney Amaral. Nesse território a poesia se sente em casa. Diz a certa altura a Duquesa a Alice: “Cuide dos sentidos, que os sons cuidarão de si mesmos”.
Ponho-me a descrever as recentes esculturas de Sidney Amaral: uma peça sem título, bem-humorada, espécie de brincadeira com os signos da Disney. Objeto na mesa da sala de jantar, formado por outros objetos identificáveis: vidro de perfume, bombinha de tirar leite, pedaços de talheres, calçadeira de sapatos. Um pato ou um prato? Inteligente comutação de sentidos.
Os objetos se particularizam nas peças desse autor. É possível ler também o deslocamento do ready-made e inúmeras outras referências estéticas a que o próprio artista reafirma na pintura em que escreve o nome de Magritte.
Traz à tona reobjetos construídos com utensílios compartilhados com o espectador, através de ação deliberada, carregada de subjetividade.
Na solidão da falta de acesso à internet para escrever a descrição das obras de Sidney Amaral, revejo de memória a revolução de objetos provocada por essas esculturas, que cabem perfeitamente na mesa ao lado dos sofás macios de couro ou camurça. Descombinam com outras coisas deitadas nela. O cinzeiro azul de cristal, o vaso magro de flor, troços comprados nos Reina Sofía e Momas.
Álbum de família. Distorção do tempo geológico do bronze. Transmutação de vidro em ouro. Jorge Ben. Isso é o que faz sentir a força bruta de um copo de tomar cerveja, do boteco da praia, espetado com duas escovas de dentes de bronze em beijo de fotonovela. Colocá-lo aqui ou ao lado do frasco vazio do perfume Eau du soir? O copo descolado do contexto, usado para guardar, devido à invisível ação matinal de acordar, as escovas de dente. Uma pessoa casada. Cor dourada da aliança, símbolo dos símbolos, perfeito como exemplo. Traz embutido diálogo afetivo, contrato social, imobiliário, monetário. Uso do procedimento clássico da arte em oposição ao “mundo da utensilagem”, conforme o filósofo Sartre (1905-1980) define nosso mundo.
Alice não se lembrava do próprio nome e as coisas podiam trocar de lugar, como um ato para festejar o ápice do dia, em que nos esquecemos das coisas do mundo, dos utensílios. Eles formam o que somos e escolher entre eles para sobreviver, pensava o francês Jean-Paul Sartre.
Com a piranha sempre largada pela casa e velhos barbeadores da marca Prestobarba, uma aranha se forma. Ando pela sala. Volto ao quarto depois de um café. Os objetos de Sidney Amaral suscitam pensar, que se desenvolvam relações e se perguntem os motivos. Por que um objeto é formado de um prendedor de cabelos e um aparelho de barbear em bronze moldado? Vêm à mente outras aranhas, em carne viva e de outros materiais.
Subo as escadas em caracol. Em cima da mesa um objeto branco, parece leve, côncavo, com um boneco minúsculo, desses que se compram na ladeira Porto Geral, no centro da cidade de São Paulo, para enfeitar bolos de festas de nascimento. A visão mais próxima provoca sensação oposta: é um bebê no absorvente, que foi moldado e pintado de branco. O bebê foi deslocado para o espaço curvo e resultou em escultura de bronze. “Estala, coração de vidro pintado”, lembrando o poema de Fernando Pessoa, requalificando a corda chamada coração.
O que singulariza o artista em pauta é sua poética combinatória, assunto clássico e de todas as artes. Está no paradigma do procedimento, parece um cientista reconstruindo o mundo, montando hipóteses e revelando evidências, como a associação entre a menstruação e o bebê. Exatamente no balcão de pedra no banheiro feminino. Ou perto do creme branco para os olhos, do blush, da máscara facial? A boneca feita de ralador e pernas, em cima da mesa de mármore da cozinha, afasta os demais utensílios. Uma rosa é uma rosa. Um nome para a palavra nome. Obras táteis e tocantes.
Uma sandália, uma aranha. Uma tesoura e objetos sexuais seriados, sem títulos. Esculturas que retratam o improvável, associações inusitadas, um disparate: frases visuais-palavras-valise para apresentar o que se mostra como impasse e ainda com tantos impeditivos na relação signo-objeto. São imagens. Por um sono sem sonhos, sem dor, a arte é o molde de fazer.
Na memória desta descrição, ocorre a solidão com os objetos que nos acodem. Em momentos depois das grandes brigas ou grandes acontecimentos, quando ficamos a sós na casa e rememoramos o que se passou, ficamos com as coisas, elas são nossos cúmplices e testemunhas e passamos a dialogar com elas. É isso que o Sidney faz. Colocar a casa como palco de muitos personagens e onde os objetos são tão vivos quanto as pessoas.
No quarto dela, Susie ou Barbie, com articulações calculadas, ao bronze natural ou pintadas de branco, deixando exposto o nervo do dia, com a cabeça feita de um frasco de perfume com borrifador.
O Sidney aparece, na função de artista, como alguém que nos incita a assumir e experimentar este lado falante dos utensílios que nos acompanham no dia a dia por toda a nossa vida. Projetamos sobre eles emoções. Podemos ver o trabalho do Sidney Amaral como algo que escancara o lado mágico das coisas do cotidiano. Como os snark de Carroll, parece que as coisas inanimadas ganham vida.
Mônica Rodrigues da Costa Poeta, jornalista e professora. Fevereiro de 2012.
*UCHOA LEITE, Sebastião. Aventuras de Alice no país das maravilhas – Através do espelho e o que Alice encontrou lá (São Paulo, ed. Summus).
SOBRE OS TRABALHO DE SIDNEY AMARAL
POR CLAUDINEI ROBERTO
O contemporâneo, na arte, reserva um espaço consagrado à versatilidade, versatilidade que, num certo sentido, pretende contemplar a complexidade do período em que ela, arte, esta inserida.
O espaço dedicado a exposição dessa arte (galeria pública ou privada, museu e ou instituição cultural alternativa) deve, observar e, sempre que possível, absorver, as manifestações que dão conta da multiplicidade de modos de expressão, necessários, como dissemos, a percepção do universo contemporâneo, preparando-lhes desse modo a sua recepção pelo público, também múltiplo, diverso, complexo.
A polifonia presente na obra de Sidney Amaral, jovem artista paulistano, corresponde a essa presunção, ou seja, as várias formas que seu trabalho adquire, os meios expressivos dos quais ele lança mão, criam, abraçam e devassam o seu universo poético.
Suas esculturas tanto quanto seus desenhos, pinturas e objetos, compõem um panorama onde sua humanidade, moldada na grande cidade, apresenta-se através de obras que destilam questões de ordem existencial, ironias e sarcasmos, quando questionam, por exemplo, na sua escultura e instalação, o destino original dos objetos deslocando-lhes os sentidos pela alteração da matéria. Sucede que este artista é também um jovem negro, brasileiro, atento a tudo que essa condição pode significar, condição que naturalmente contamina suas eleições éticas e estéticas, sem, no entanto diminuir-lhes o rigor e a pretensão artística, pelo contrario, ela contribui para o adensamento de suas propostas, cuidando para não enclausurá-las numa retórica panfletária e parcial.
Sidney Amaral (1973 - São Paulo/SP). Professor e artista plástico formado pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). Foi aluno de Ana Maria Tavares (Museu Brasileiro de Escultura - MUBE), estudou pintura acadêmica e fotografia. Seu trabalho consiste basicamente de apropriações de objetos prosaicos recriados em bronze, mas também trabalha com mármore, resina e porcelana. Participou de várias exposições coletivas e individuais, tais como Encontro entre dois mares (Bienal de Valência 2007), Réplica e Rebeldia – Exposição itinerante com artistas de Angola, Brasil, Cabo Verde e Moçambique (Museu Nacional de Arte de Maputo, 2006), Siexpo – Museu de Historia Natural (Luanda, Angola, 2006), Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM, 2006), Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ, 2006), Viva cultura viva do povo brasileiro: um olhar sobre a arte brasileira (Museu Afro Brasil, SP, 2006), Negras memórias: memórias de negros (Museu Oscar Niemayer, PR, 2005/06), Coletiva Programa de Exposições (Centro Cultural São Paulo, 2001). Individualmente, expôs na III Mostra do Programa de Exposições Centro Cultural de São Paulo 2001. Obteve o Prêmio Aquisição no III Salão de Artes Plásticas de Americana (2000).
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