Armando Caldas
Histórias da minha infância
O meu pai, ex-seminarista, e a minha mãe, provinham de famílias minhotas saudavelmente católicas e honravam o seu credo com afinco. Por isso, no espaço de 11 anos fizeram 9 filhos até chegarem a mim e pararem... creio eu que por atingirem a perfeição! Seguindo então a lei das probabilidades, todos os anos havia uma ou outra raposa que no fim do ano lectivo aparecia a espreitar à porta... era assim que o meu pai, com humor algo sarcástico, se referia às reprovações dos seus filhos que, por regra, não eram grandes alunos e tinham uma maior queda para as artes do que para os estudos. Eu, como não tinha jeito para nada, cresci com o complexo de que as minhas mãos eram inúteis. Ainda hoje olho para elas com tristeza...
Mas para além dessas raposas mais comuns lá por casa, uma de carne e osso ficou indelevelmente registada na minha infância. Um dos meus irmãos, o Mingos, que tinha uma costela animalista e me contagiou com o amor aos bichos, tinha por hábito esconder rolas e pegas bebés debaixo da cama, para a minha mãe não as encontrar. Criava passarada, coelhos, galinhas e outras vezes trazia para casa um cão com a pata partida que encontrara na rua.
O meu saudoso irmão era também uma criança asneirenta, como toda a criança que se preze (já eu, era um miúdo insosso, angelicamente loiro e magrinho, que não partia um prato... o que soma mais um à palete de traumas que trouxe da minha infância). Uma das asneiras do Mingos foi quando eu tinha 4 ou 5 anos... encontrou uma raposa morta no meio do monte cortou-lhe uma perna e fritou-a na fritadeira nova da nossa mãe! Como nunca foi egoísta, meteu a carne em fatias dentro de pães e foi com mais dois irmãos, entre os quais eu me incluía, comer as sandes para o quintal da casa dum vizinho, o Zé Maria. Este que não provinha de uma família numerosa e estava por isso mal habituado, foi o primeiro a estranhar a carne e atirou a sandocha ao Piloto, o seu cão. Este cheirou... e rejeitou...
Eu e os meus irmãos mastigamos com fé, até ao fim, e agradecemos ao Senhor o alimento quase cru e borrachento que nos tinha sido providenciado!
Raposa / Fox (Vulpes vulpes)
Parque Nacional de Monfragüe, Extremadura, Espanha. (30/04/09)
Histórias da minha infância
O meu pai, ex-seminarista, e a minha mãe, provinham de famílias minhotas saudavelmente católicas e honravam o seu credo com afinco. Por isso, no espaço de 11 anos fizeram 9 filhos até chegarem a mim e pararem... creio eu que por atingirem a perfeição! Seguindo então a lei das probabilidades, todos os anos havia uma ou outra raposa que no fim do ano lectivo aparecia a espreitar à porta... era assim que o meu pai, com humor algo sarcástico, se referia às reprovações dos seus filhos que, por regra, não eram grandes alunos e tinham uma maior queda para as artes do que para os estudos. Eu, como não tinha jeito para nada, cresci com o complexo de que as minhas mãos eram inúteis. Ainda hoje olho para elas com tristeza...
Mas para além dessas raposas mais comuns lá por casa, uma de carne e osso ficou indelevelmente registada na minha infância. Um dos meus irmãos, o Mingos, que tinha uma costela animalista e me contagiou com o amor aos bichos, tinha por hábito esconder rolas e pegas bebés debaixo da cama, para a minha mãe não as encontrar. Criava passarada, coelhos, galinhas e outras vezes trazia para casa um cão com a pata partida que encontrara na rua.
O meu saudoso irmão era também uma criança asneirenta, como toda a criança que se preze (já eu, era um miúdo insosso, angelicamente loiro e magrinho, que não partia um prato... o que soma mais um à palete de traumas que trouxe da minha infância). Uma das asneiras do Mingos foi quando eu tinha 4 ou 5 anos... encontrou uma raposa morta no meio do monte cortou-lhe uma perna e fritou-a na fritadeira nova da nossa mãe! Como nunca foi egoísta, meteu a carne em fatias dentro de pães e foi com mais dois irmãos, entre os quais eu me incluía, comer as sandes para o quintal da casa dum vizinho, o Zé Maria. Este que não provinha de uma família numerosa e estava por isso mal habituado, foi o primeiro a estranhar a carne e atirou a sandocha ao Piloto, o seu cão. Este cheirou... e rejeitou...
Eu e os meus irmãos mastigamos com fé, até ao fim, e agradecemos ao Senhor o alimento quase cru e borrachento que nos tinha sido providenciado!
Raposa / Fox (Vulpes vulpes)
Parque Nacional de Monfragüe, Extremadura, Espanha. (30/04/09)